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Criança, mídia e consumo

Segundo dados do Unicef[1] (2014), o mundo tem quase 7 bilhões de habitantes. Desse total, mais de 2 bilhões são crianças. A maior parte dos países concorda que é importante proteger os direitos dessas crianças. Mas muitas ainda sofrem com a fome, as doenças e a violência. E, segundo a ONU[2], no mundo hoje nascem três crianças por segundo ou 180 crianças por minuto. Crianças da era digital? 

Em grande medida, temos a tendência de compreender toda a infância do planeta como profundamente afetadas pelo impacto das mídias, velhas e novas, em especial as digitais e em rede. Só que não é bem assim. Ainda temos em todo o planeta uma pluralidade de infâncias, particulares, diferentes e desiguais. Populações e culturas, em seus recantos geográficos remotos, definem outras realidades daquela que habitantes dos centros urbanos compreendemos em nosso senso comum.

Como perfeitamente descreveu a jornalista Patrícia Cerqueira: “A cada hora nascem 321 bebês no Brasil. São 5,36 por minuto ou um a cada 11,2 segundos. Eles chegam ao mundo pelas mãos de parteiras, como no Amapá, e de obstetras estrelados, exemplo de São Paulo. Todo dia tem bebê dormindo em rede e em berço desenhado por arquiteto. Tomando banho em bacias de plástico e nos miniofurôs. Aprendendo a andar em chão de terra batida, na areia da praia, no piso de tábua corrida do apartamento. Bebendo chimarrão, missoshiro, caldinho de feijão. Comendo papa de uariri (um tipo de farinha de mandioca grossa) e saboreando jambo, banana, maçã e açaí.”[3]

Assim, a hipótese que sustenta esta pesquisa é a de que os estudos acadêmicos em comunicação e infância precisam dedicar maior atenção à chamada “esfera da recepção”, focalizando nos contextos e cenários diferentes e desiguais que definem modos também particulares de uso e apropriação das mídias. No plano institucional, esta pesquisa situa-se na Linha de investigação: Processos de recepção e contextos socioculturais articulados ao consumo do PPGCOM ESPM.  

Pesquisas sobre mídia e infância têm necessariamente uma trajetória recente na produção das teorias sociais e humanas. E Psicologia Social é a disciplina que dedica maior atenção ao tema com farta bibliografia, em grande medida de abordagem funcional, comportamental e grande ênfase na teoria cognitiva. Não seria equivocado sugerir que desde os primeirosestudos dos efeitos, realizados a partir dos anos 1940 nos EUA, a ideia de impacto gerador de “efeitos diretos” se mantém dominante e alcança o senso comum.

Osestudos de recepçãotêm buscado construir uma ruptura com essa abordagem e, no caso da pesquisa com crianças, defendem que não há uma infância, mas sim uma pluralidade delas, em contextos marcados por diferenças sociais, geográficas e culturais. E que não é possível compreender a criança de modo isolado de seu contexto e como sujeito completamente desprovido deagência, no sentido proposto por Anthony Giddens, ou seja, como se para a criança não fosse possível “agir de modo particular ou fazer uma diferença em um estado de coisas”.

Portanto, a metodologia que usamos é etnográfica. Isso significa buscar uma abordagem antropológica para superar a ênfase psicológica do receptor individual, “atomizado”, e compreender como o contexto social, geográfico e cultural da criança dialoga e intervém nas leituras que elas e eles realizam sobre o “mundo” da mídia. 

No campo da comunicação social, essa metodologia se ancora nos chamados Estudos Culturais britânicos e na abordagem latino-americana das Teorias das Mediações. A partir desse referencial teórico, vamos verificar como se manifesta umacompetência culturalda criança (Hoggart, Williams, Thompson, Martín-Barbero) diante de conteúdos veiculados pela mídia. Este estudo espera trazer também algumas contribuições àqueles que se interessam pelapesquisa qualitativaem particular.  

Etapas e desenvolvimento da pesquisa

A pesquisa etnográfica foi realizada ao longo de 2013, pelo período de oito meses de convivência com crianças de 9 a 11 anos que frequentam uma ONG. A instituição atende crianças carentes no contraturno escolar no bairro da Barra Funda, em São Paulo (SP). Crianças que são em grande maioria moradoras de uma favela.

O objetivo da pesquisa foi verificar a presença da publicidade no imaginário daquelas crianças. Ao superar a noção deefeitos diretos, o intuito foimapear o imaginárioe encontrar pistas sobre a opinião das crianças, procurando também localizar a agência e competências particulares nas leituras que fazem dos textos midiáticos, especialmente da TV e internet.

Além disso, a pesquisa utilizou a metodologia da Mídia-Educação. Assim, a convivência com as crianças foi construída durante uma permanência em campo garantida pela interação com a produção de um vídeo de 16 minutos, autoria das próprias crianças. Esta pesquisa espera trazer uma série de contribuições para aqueles que se interessam pela pesquisa qualitativa.

A pesquisa etnográfica exige um período relativamente longo com os sujeitos envolvidos. Quando estes são crianças, a metodologia pede uma série de cuidados para que seja minimizada a hierarquia adulto-criança. Isso requer do pesquisador um cuidado maior para não incorrer em análises rápidas e superficiais, uma vez que o objetivo é compreender que sentidos são produzidos pelas crianças a respeito e a partir das suas relações com as mídias.

Resultados alcançados, ainda que em percurso

Este trabalho verificou que as crianças mostraram uma competência particular na leitura dos comerciais de TV. Elas tinham um repertório sobre esse gênero narrativo em particular, sabendo discerni-lo com relativa facilidade de outros gêneros como o jornalístico e o ficcional.  Mostraram também uma postura crítica perante os apelos sedutores dos comerciais, denunciando possíveis apelos textuais enganosos. O telejornalismo foi o gênero que mais se destacou no repertório das crianças quando as mesmas foram convidadas a produzir uma peça audiovisual. 

A partir da metodologia de Mídia-Educação, as crianças foram convidadas a produzir um programa de TV e na reunião de pauta utilizamos a técnica dapalavra-geradorade Paulo Freire. As crianças identificaram as manifestações populares desencadeadas pelo Movimento Passe Livre em 2013 (com repercussões por todo o Brasil) como o tema de maior relevância daqueles dias nos quais estávamos em campo. Elas também mostraram competência ao identificar a sua impossibilidade de participar de tais manifestações, assim demonstraram interesse em realizar um vídeo sobre os Direitos das Crianças.

Na produção foram feitas muitas referências ao programa Cidade Alerta, da Rede Record. O repertório sobre o programa de TV pareceu ser mais preocupante que as leituras que as crianças produzem a respeito de publicidade. Outro dado extremamente relevante identificado pela pesquisa foi o modo como as mesmas utilizaram um telejornal em particular (Cidade Alerta) mantendo o seu formato, mas modificando completamente o seu conteúdo– qual seja, de exploração e apologia à  violência em estilo sensacionalista.  Elas usaram o formato desse telejornal com todos os jargões criados pelo seu apresentador, como o “corta pra mim”, entre outros; para divulgar um conteúdo de seu interesse sobre os direitos das crianças.

Foi possível concluir que crianças de 9 a 11 anos são muitas vezes subestimadas nas suas competências e são compreendidas pelos adultos como vítimas, frágeis, vulneráveis, incompetentes. É certo que as crianças são sujeitos em formação e que, como disse Bruno Bettelheim (1980), é somente na idade adulta que alcançamos uma compreensão do significado da nossa existência no mundo. Compete a nós, adultos, ajudarmos a criança a encontrar e construir esse significado. A pesquisa de recepção pode contribuir muito na construção de mediações que localizem as competências particulares das crianças e as encorajem a desenvolverrecursos e táticasnos usos e consumos que fazem das mídias contemporâneas.

Memórias do campo: Oficina de Mídia-Educação [4]

Produção
Cenografia

Maquiagem

Os apresentadores

[2] FONTE: http://super.abril.com.br/cotidiano (acesso 2014)

[4] As imagens aqui divulgadas foram autorizadas.